ENTREVISTA

A China é o país que mais cresceu no mundo nos últimos 10 anos. Essa nação de cultura milenar, apoiada no regime socialista, seria a única capaz de se
opor a hegemonia norte- americana, daqui a alguns anos. Seria a reedição
da Guerra Fria. Nesta entrevista, o membro da Escola Superior de Guerra e Coronel da reserva da FAB,
Manuel Cambeses Júnior, fala dos investimentos
militares da China e dos Estados Unidos, além do futuro das relações
bilaterais entre essas nações.


Segundo o governo chinês, a política externa do país é pautada pela oposição ao hegemonismo e contrária à intervenção nos assuntos internos de um país por outro. Seguindo esses princípios, por que a China não se opôs com maior veemência à decisão norte-americana de invadir o Iraque?

A atitude da China foi de prudência, de não se envolver num problema que afeta diretamente os norte-americanos. Na realidade, os Estados Unidos estão dando uma resposta aos atos terroristas de setembro de 2001. Primeiramente foi o Afeganistão, que a China de igual maneira procurou manter-se isenta. Essa atitude prudente do governo chinês não quer dizer que ele não esteja preocupado. Evidentemente que está preocupado, até mesmo porque um aliado deles, que é a Coréia do Norte, foi julgado como pertencente ao eixo do mal. Dessa forma, amanhã ou depois, a China poderá ser arrolada dentro desse caminho avassalador que Washington está abrindo, muito embora com toda essa estupefação do mundo, nesse cenário internacional marcado pelo unilateralismo. Portanto, o governo chinês não se eximiu dessa preocupação. É que as notícias veiculadas na imprensa do Ocidente, via de regra, são recebidas dos organismos mais ligados aos países que compõem o G-7. Por isso, nós temos, muitas das vezes, visões deformadas e estereotipadas, em função dessa atitude da imprensa ocidental, que está mais afeita a acolher as idéias do norte-americano. Mas lendo os jornais chineses e russos, a gente observa que há realmente uma preocupação muito evidente com relação a esse tipo de ação da nação hegemônica.

Em março de 2001, a China aumentou o orçamento da Defesa para cerca de US$ 17 bilhões. Seria uma resposta à intenção norte-americana de construir o escudo anti-mísseis?

Não é de hoje que a China está incrementando avassaladoramente o seu poderio militar. Os Estados Unidos, para esse próximo ano de 2004, terão um orçamento militar beirando a 400 bilhões de dólares. Isso daria mais de um bilhão de dólares ao dia. O nosso orçamento no Brasil é de 3 bilhões para o ano inteiro, ou seja, o equivalente ao orçamento dos Estados Unidos para 3 dias. Evidentemente os líderes chineses estão preocupados em manter forças armadas que se coadunem com o posicionamento estratégico do país, ou seja, que estejam à altura do seu desenvolvimento, na ordem de 10% o incremento do PIB anual, o país que mais cresce no mundo nesses últimos 10 anos. Então é natural que uma nação que hoje tem essa pujança industrial, econômica e comercial, siga os ensinamentos do grande Mestre Sun Tzu, filósofo e grande militar estrategista, cujas regras foram ditadas a 500 a.C., no livro "A Arte da Guerra", perfeitamente válidas até os dias de hoje. Assim, eles não devem descurar da sua expressão militar do poder nacional, até porque é um país marcado por uma história de guerras violentas e sangrentas, inclusive uma das últimas com o Japão. Essa preocupação do governo chinês encontra apoio na cultura militar do povo, mas muito mais para manter um poder de contrapor-se a qualquer ameaça externa. Até vaticinaria que nos próximos 25 anos haverá uma confrontação bipolar. Não chegando muitas vezes ao campo da contenda, mas sim, uma guerra fria entre Rússia e Estados Unidos. Seria uma grande bipolaridade mundial, cada uma arrastando para o seu lado os países satélites e simpatizantes. A Rússia poderá formar uma coalizão russo- chinesa para os próximos 25 anos, tudo leva a crer.

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